Na história da cena portuguesa do Spectrum continua a haver alguns mistérios por resolver. O mais mediático será o de se saber quem de facto foi o responsável por Paradise Café. Algumas pistas indicam que se pode tratar de um professor de Braga. No entanto ainda estamos muito longe de resolver este enigma.
No entanto, o que nos traz aqui hoje tem haver com outro jogo português que permaneceu "perdido" durante largos anos, até recentemente termos obtido uma cópia e conseguir recuperar digitalmente as duas primeiras partes deste jogo, conforme anunciámos com pompa e circunstância
aqui. Talismã foi inclusive o primeiro jogo português a ser registado na SPA, há mais de trinta anos.
Segundo as revistas da época, o jogo era composto por quatro partes. isto mesmo se pode ver na
review que saiu na Capital a 18 de Abril de 1987 (ver parte assinalada a vermelho). E reparem no pormenor dos
screenshots: os dois apresentados dizem respeito apenas à primeira parte do jogo.
Outro pormenor que nos chamou desde logo a atenção foi o
loading screen. Tendo o jogo sido criado em 1987, porquê a referência a 1990? Será que o
loading screen (pelo menos o que acompanha o jogo) apenas foi criado efectivamente em 1990, sendo a versão que Daniel Lima analisou para a Capital, em 1987, uma versão inacabada, composta apenas pela primeira parte? Analisando o próprio texto da
review, tudo leva a crer nisso.
Em Setembro de 1990 surge um exclusivo do Talismã na revista Computer Magazine (número 10). Também aqui são referidos quatro partes (ou níveis). No entanto, o próprio autor do artigo refere que apenas teve acesso às duas primeiras partes, sendo a análise toda baseada nisso. Poderão comprovar nas partes assinaladas a vermelho.
Não é assim de estranhar que o próprio artigo apenas apresente
screenshots dessas duas partes, como podem ver na foto seguinte.
Ao longo do artigo também é referido pelo seu autor que conseguiu o jogo através da Softmail, especializada em colocar no mercado jogos "piratas", como era prática habitual na altura no nosso país. Mas não deixa de ser interessante que referem que incluso vinha um manual, o qual nunca tivemos acesso, mas que pelos vistos existe.
Mas qual a razão por apenas em 1990 aparecer este artigo. Será que a primeira parte foi lançada em 1987 (ainda sem
loading screen), tendo a segunda parte aparecido mais tarde, em 1990, o que até se conjuga com o ecrã de carregamento? É uma forte possibilidade, na nossa opinião.
Outro facto que nos leva a essa conclusão está relacionado com o facto do jogo ter dois autores. O primeiro, o jornalista José Antunes, era conhecido por fazer as
reviews no suplemento Som e Imagem do Diário de Notícias. Já o segundo, também jornalista, é bastante menos mediático. Qual terá sido o contributo de cada um para Talismã? Será que um foi responsável (ou teve uma contribuição maior) na primeira parte, e outro na segunda?
Tendo nós analisado ao pormenor as duas partes do jogo, passando longos dias de volta dele até o terminar, a sensação que temos é que a primeira parte foi feita de forma muito profissional, com diálogos e desafios muito interessantes. Já a segunda parte parece ter sido feita à pressa, os próprios diálogos parecem ter sido feitos por uma outra pessoa, sendo o estilo e o cuidado com a escrita muito diferentes da primeira parte, para pior, refira-se. Veja-se o exemplo seguinte, sendo o ecrã da esquerda referente à primeira parte, e o da direita referente à segunda.
Acresce ainda um pormenor. Quando tentámos entrar em contacto com um dos seus criadores, José Antunes (não temos o contacto de Moutinho Pereira), apenas obtivemos silêncio relativamente a este jogo. Não deixa de ser estranho, também, pois a nosso ver, pelo menos a primeira parte está muito bem conseguida e seria um orgulho para qualquer pessoa falar sobre a sua criação.
Tudo isto leva-nos a especular um pouco e a colocar algumas questões:
- Será que em 1987 apareceu uma primeira parte de Talismã, sem ecrã de carregamento, e que foi enviada para a Capital e eventualmente outros jornais?
- Terá a segunda parte apenas sido concluída em 1990, tendo também nessa altura sido criado o ecrã de carregamento, entrando então o jogo no circuito comercial? Note-se que em 1990 o Spectrum já estava a entrar no seu ocaso e os lançamentos pouca exposição tinham, não sendo sequer comercialmente interessantes, podendo inviabilizar a continuação do jogo.
- Terão a primeira parte e segundas parte tido autores, ou pelo menos maiores contribuidores, diferentes?
- E a questão mais importante: será que as terceiras e quartas partes, que estavam previstas inicialmente pelos seu(s) autor(es), nunca foram concluídas (ou sequer começadas), daí não as encontrarmos em lado algum?
Estas são questões que gostaríamos de ver respondidas (mais até do que saber quem foi o criador de Paradise Café). Não iremos descansar enquanto não descobrirmos a história por trás deste jogo, ou, quem sabe, encontrar as terceiras e quartas partes, se estas realmente existirem...
Nota: este
post reflecte a visão pessoal de um dos colaboradores de Planeta Sinclair, André Leão, assumindo a responsabilidade pelas ideias aqui avançadas.