terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Mapas de João Cruz e uma revelação

Desde Outubro de 2018 que o Planeta Sinclair tem vindo a publicar, semanalmente, as digitalizações da parte referente à informática no suplemento do jornal "A Capital". Tem sido uma viagem nostálgica para muitos, e de descoberta para outros que nunca tiveram contacto com este jornal. Foi o meu caso, sendo um nortenho e tendo morado num lugar onde este jornal não tinha expressão. E como nunca é tarde para recuperar o tempo perdido, tenho aguardado todas as sextas-feiras por um "novo" suplemento, o qual leio quase como se ainda me encontrasse na segunda metade da década de 80. No entanto, numa dessas ocasiões, a expectativa deu lugar à surpresa: pois vi algo num suplemento de "A Capital" que me era extremamente familiar - mas sobre isso falarei mais adiante.

Não é de surpreender a razão do sucesso deste suplemento: fosse sobre música, cinema ou televisão, os artigos eram bem escritos e apreciados pelos leitores. A parte de informática, a qual em determinado período, esteve à responsabilidade do saudoso Eurico da Fonseca, acompanhava as tendências no cenário português - e hoje ainda é um manancial de informação para quem se interessa por retro-computação. 

Quanto à secção relacionada aos videojogos, além das novidades e reviews, esta teve uma comunidade de leitores que dinamizou o espaço, com as suas contribuições, fossem os famosos pokes, dicas e carregadores, ou então, listagens de rotinas e até jogos simples. Mas o que realmente chamava a atenção eram os mapas de jogos desenhados à mão, enviados pelos jovens leitores que expressavam a sua criatividade através do lápis.

Para mim tem sido um regalo apreciar as criações de quem à época, era criança ou jovem, que com maior ou menor esmero, tentava reproduzir o "universo" de um qualquer jogo na folha de papel. Reparei, no entanto, que havia um leitor que se destacava pela qualidade e criatividade dos seus desenhos. Este jovem foi o João Paulo Neto da Cruz, de 18 anos, e que contribuiu com alguns dos mapas mais interessantes e minuciosos que pude encontrar nestes suplementos.

A primeira contribuição do João Cruz foi na edição de 1987/04/24 (ver aqui) com um minucioso mapa de Druid, além de um quadro com dicas e pokes para o jogo Aliens que incluía uma ilustração remetendo para o respectivo filme. Podemos apreciar todas as contribuições com maior detalhe, clicando nas imagens que se seguirem.



Eu voltei a encontrar o traço do João na edição de 1987/08/27 (ver aqui) com um mapa incrivelmente detalhado do jogo Into The Eagles Nest, onde é evidente o esmero em cada pormenor.


Se dúvidas houvesse quanto à imaginação fértil do João, nesta mesma edição ficamos a conhecer uma sua criação, o "Capital Army", temível exército de caçadores de dicas do jornal "A Capital". Não há dúvida que é uma forma muito criativa de apresentar dicas!


Uma nova contribuição do João alegrou a edição de 1987/11/27 (ver aqui) com um mapa bem catita do jogo Aftershock e onde é apresentado mais um caçador de dicas, um robot que integra o "Capital Army". De notar numa simpática cabeça que lança um apelo aos aventureiros portugueses para que partilhem as suas produções (feitas no GAC ou por qualquer outro meio). Sem dúvida que o interesse do João ia além dos jogos estrangeiros.


Já o quadro de dicas aparece com uma ilustração em que se vê um trio de soldados do "Capital Army" (no qual a simpática cabeça também faz parte) a enfrentar alienígenas de garras e tentáculos retorcidos, numa cena recorrente no imaginário do João Cruz. É, sem dúvida, o destaque desta edição do suplemento!


Finalmente, a última contribuição que achei até ao momento é da edição de 1987/12/31 (ver aqui) e relembrando que o Planeta Sinclair ainda não terminou a publicação de todos suplementos. Ao contrário das contribuições anteriores, o João inova com um quadro que preenche por completo a área do "Espaço de aventura" onde apresenta dicas de jogos de aventura, bem como de outros géneros. Destaque para um magnífico desenho do que parece ser uma sala de controlo com respectiva maquinaria, e onde reencontramos a simpática cabeça que finalmente tem um nome: "Big Fat Joe", sendo descrito pelo João como o "personagem mais endiabrado de Capital Army", tendo inclusive acabado de destruir um robot só para trazer as dicas da semana.


Estes desenhos cativaram-me não só pelo traço, bem como pelo imaginário envolvente, pois era o que eu gostava quando mais pequeno: robots, aliens, cenários ao estilo mad-max, etc. Mas sentia que havia algo mais que me fazia prestar maior atenção a estes desenhos. Logo no início deste post referi que certo dia vi algo familiar...

Foi ao olhar para o "Big Fat Joe" que senti um baque, uma sensação de dejá-vú, algo me dizia que já tinha visto este desenho antes! Mas como seria possível se nunca na minha casa se leu "A Capital"! E foi num instante que logo veio a certeza! Claro! Eu já conhecia o traço do João Cruz! Melhor ainda, sabia quem ele era! Corri para uma estante, tirei uma pasta com velhos recortes e encontrei este desenho!


Estava esclarecido o mistério, o leitor que fazia aquelas excelentes contribuições para "A Capital" era o mesmo João Cruz que fora responsável, durante muitos anos, pela secção Micromania do JND - suplemento de Domingo do Jornal de Notícias e que, por acaso, o Planeta Sinclair já referiu aqui! O desenho é inequívoco, vemos a simpática cabeça que, se a memória não me engana, era conhecida pela alcunha de "Bola-de-Queijo", e fazia parte de um pelotão de mercenários, também denominados por JN Troopers

Este pelotão seria o congénere do "Capital Army" e teve uma tira de banda desenhada, publicada no topo da primeira página da Micromania. Do que me consigo lembrar da história dessa tira, os JN Troopers vão investigar um salão de jogos abandonado, quando sofrem uma emboscada de alienígenas, os quais curiosamente partilham uma estética muito semelhante aos que encontramos nos desenhos João no "A Capital". 

Tenho apenas três tirinhas que se apresentam abaixo, mas que servem para se ter uma ideia do quão criativo o João foi!




Os exemplares mais antigos que tenho da Micromania são de 1988. Não faço ideia, mas ainda assim arrisco a especular que as contribuições do João Cruz poderão ter sido determinantes para ser convidado pelo JN para escrever sobre videojogos. Não há dúvida que talento não lhe faltava - a Micromania resistiu até 1992!

2 comentários:

  1. Obrigado por este excelente artigo e ótimas memórias.
    Tenho montes de páginas dessa secção Micromania guardadas religiosamente.
    Já perdi a conta à quantidade de vezes que as revisitei.
    Cheguei a partilhar tudo num ficheiro PDF num grupo de retrogaming no facebook.
    Uma autêntica pérola.
    Obrigado.

    Miguel Brandão

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    1. Olá Miguel! Estamos agradecidos pelos elogios! :)
      Eu particularmente guardo a "nossa" Micromania num cantinho especial da arca das memórias. Já tivemos conhecimento do PDF através de um nosso leitor! Quem sabe se um dia conseguiremos fazer a compilação de todos as Micromanias desde quando o JND era em papel de jornal até à versão de revista!
      Filipe Veiga

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