Mas, além dessa antevisão do que viria por aí, esta edição foi particularmente recheada de material dos leitores. A programação regressou ao espaço do Microclube, com mais 4 rotinas de António Rodrigues - leitor com pendor mais técnico - com diferentes finalidades: a animação de uma bola no ecrã, utilidades para usar a lightpen, identificar se o gravador estava em funcionamento e contabilizar a memória disponível para programas em Sinclair BASIC. As rotinas encontram-se embaixo, caso algum curioso as queira digitar:
Também foi publicado um mapa da primeira fase de After the War, ilustrado pelos irmãos (?) Vitor e Ricardo Barbosa — contribuidores habituais de mapas. Eu adorei este mapa, pois sempre fui fã de filmes e séries pós-apocalípticos, com mutantes, androides e punks. Um dos trabalhos que gostaria de ter enviado para a Micromania teria sido sobre este mesmo jogo. Ainda sobre este mapa, gostaria de referir o detalhe da ilustração que está por detrás dele. Quem é mais atento já terá notado que muitos dos mapas publicados na Micromania apresentavam decorações que emolduravam e ocupavam espaços vazios, com um traço que parece diferente do apresentado nos mapas. Pois é, João Cruz é o autor anónimo que embelezava o espaço dos leitores, seja com lettering ou com ilustrações. Foi a cola que ligou muitos trabalhos de diferentes autores na mesma página e que deu a identidade visual que tornou tão especial a Micromania. Não somente o constante diálogo incentivado entre leitores, mas também a arte de João Cruz, que esteve sempre presente, ainda que de forma discreta.
Agora que chegamos ao fim desta longa série de partilhas, e se me permitem, gostaria de partilhar alguns pensamentos em tom mais pessoal.
Eu vivi intensamente essa época tardia do ZX Spectrum. Não tinha idade suficiente para entrar nos salões de jogos. Havia um desses estabelecimentos ao lado de onde morava, com o ambiente habitualmente associado a esses espaços: mal frequentados, escuros, sujos e irrespiráveis por causa do fumo do tabaco. Mas as cores, luzes, sons electrónicos atraíam-me. Restava-me espreitar do lado de fora da porta, sem coragem de entrar para ser corrido pelo dono do salão! Eu precisava de um computador; queria jogar! Os meus pais não tinham nem os meios nem a justificação para comprarem um dos computadores mais caros, cujos jogos se aproximavam da qualidade das arcades, como o Commodore Amiga que já fincava pé em vários lares portugueses. O computador era visto exclusivamente como um brinquedo. Por isso, um Spectrum, em segunda mão, da filha de uma colega da minha mãe, foi o que me calhou.Esse desejo de ter um Spectrum foi alimentado precisamente pela Micromania, uma presença recorrente em casa aos domingos. Logo de manhãzinha, o meu pai saía para comprar o JN ao velho ardina que se mantinha no cruzamento da Circunvalação, nos Montes dos Burgos. Ainda recordo a figura, um senhor macambúzio, de boina e sacola de jornais, junto dos filhos, na esquina onde hoje existe uma churrasqueira, também desse tempo. Quando o meu pai regressava com o jornal, eu apropriava-me imediatamente do seu suplemento, desfolhava-o até achar as duas páginas que me interessavam.
As páginas da Micromania eram a porta de entrada para um mundo fascinante. Lia e relia os textos, as análises, deliciava-me com os mapas e imaginava-me a jogá-los. Marcava com a caneta os jogos que gostaria de ter no futuro e, quando o jornal perdia o interesse da família, arrancava essas duas páginas e coletava-as numa pasta que ainda hoje guardo. Algo a que não resisto a partilhar sobre essa pasta: mantenho uma obsessão por determinar o autor da sua ilustração, pois era também uma fonte de imaginação para um menino que gostava de séries e filmes espaciais.
Tudo o que escrevi foi para mostrar o quanto a Micromania fez parte desse momento da minha vida. Ansiava pelas manhãs de domingo, pelo cheiro do papel de jornal, pela expectativa do que viria nessas duas páginas, pela magia que sentia e que, no fundo, ficou enterrada pelo tempo. Não toda, porque quando, tantos anos depois, entrei na comunidade retro e de preservação, eu trazia comigo outra obsessão, quiçá motivada por não ter encerrado um capítulo do meu passado: o de nunca ter enviado nenhum trabalho ou correspondência para a Micromania.
Os meus colegas sabiam da quantidade de vezes em que mencionava a Micromania, o que não lhes dizia muito, quer fosse porque o alcance do Jornal de Notícias era mais localizado ao norte, quer porque fora publicada numa fase mais tardia. Outras publicações do distrito de Lisboa, como a Capital, eram mais conhecidas, mais antigas.
Em certo momento do Planeta Sinclair, viramos o foco para a preservação, o que incluía, precisamente, os espaços dedicados aos videojogos em publicações como a da Capital. Foi nesse contexto que, de repente, vi uma das digitalizações dessa publicação, uma ilustração que desconhecia, mas que, ao mesmo tempo, era extremamente familiar. Eram mapas ilustrados por um João Cruz para a Capital. De repente, fez-se luz; fui a correr atrás da minha capa de recortes e concluí que o jovem leitor da Capital e o responsável pela Micromania eram a mesma pessoa!
Isto motivou-me a escrever um post em 2020: "Mapas de João Cruz e uma revelação!" que teve uma enorme repercussão! Foi através dele que encontramos o Miguel Brandão, um fã da Micromania, que guardou religiosamente todos os seus recortes e até já os havia disponibilizado em alguns grupos de Facebook. Mas estava incompleta, particularmente no que se refere à fase inicial do suplemento de jornal. A catalogação é um ponto essencial na preservação se quisermos ir além da nostalgia. O Miguel seguiu em frente com esse desafio de completar ao máximo a preservação, consultando arquivos públicos. Em 26 de junho de 2022, começamos a partilhar o trabalho do Miguel, uma edição por semana.
Ainda faltava uma peça essencial. Nada se sabia sobre João Cruz, a figura responsável pela Micromania, que desapareceu do mapa em meados dos anos 1990. Felizmente, as partilhas no Planeta Sinclair acabaram por dar frutos, e logo na segunda partilha tivemos um comentário de Francisco Cruz, que dava notícias do irmão! Em pouco tempo, estabelecemos contactos, inclusive entre o João Cruz e o Miguel Brandão, visto que havia um arquivo físico completo de todas as Micromanias mantido pelo próprio João. Desse modo, o Miguel conseguiu completar a preservação.
No entanto, os frutos desses esforços não ficaram por aqui. O João Cruz não só guardara as Micromanias, mas também teve o cuidado de guardar as cartas dos leitores da Micromania. O cuidado pelo diálogo com que marcava cada edição estava comprovado. Mas ainda mais interessante era o facto de que o João Cruz também guardara as cassetes que recebera de leitores que apresentavam os seus programas e videojogos. Estas contribuições eram muito mais raras e, por isso, também mais preciosas. Foi o caso de um jogo enviado por 3 jovens para a análise pela redação da Micromania: a versão 128K do City Connection, que estava considerada perdida, até pelos próprios autores.
A recuperação deste jogo, um pedaço importante da história dos videojogos portugueses, viria a ser realizada no Museu LOADZX, com a presença do João Cruz, dos autores (e cito também o Francisco Cruz, fã e recordista mundial n.º 1 desta versão do City Connection) e do Planeta Sinclair, em especial do André Leão, que fez o trabalho de recuperar os áudios da cassete. É óbvia a importância desta recuperação no nosso meio. Se não fosse o cuidado de João Cruz em guardar aquela cassete, eventualmente o City Connection 128K estaria perdido para sempre. O que talvez não saibam, porque não costumo divulgar outras facetas e interesses que tenho (não vivo só para o ZX Spectrum), é que eu estou envolvido na comunidade de desenvolvimento e produção de videojogos. Não é a minha ocupação principal, mas é a qual me dedico bastante de corpo e alma.
Como associado da APVP (Associação de Produtores de Videojogos Portugueses) e, também, membro da direção do capítulo português da IGDA (International Game Developers Association), tenho frequentado vários encontros de criadores, particularmente aqui no norte, referindo recorrentemente o caso do City Connection, mostrando que o talento da nossa indústria já vinha há décadas, mesmo quando ela não existia ou era incipiente. Meia dúzia de "guerreiros" tentou desbravar mato, alguns com sucesso (lembro Rui Tito e Paulo Carrasco), mas a grande maioria ficou pelo caminho. É essa história que procuro imprimir nos encontros com os nossos jovens criadores.
Enfim, e no final das contas, o que eram memórias enterradas ou esquecidas de um passado pré-internet, resultou numa dinâmica que tentei descrever aqui. Eu gosto de acreditar que a minha obsessão, de que falei acima, foi a minha pedrinha que pus a rolar e que gerou todo um movimento muito produtivo. É por isso que agora considero a minha obsessão-missão como realizada. Não entreguei nenhum trabalho para a Micromania, mas ajudei-a a não ser esquecida. Posso tirar esse peso das minhas costas!
Mas não fiz nada sozinho; obviamente, o espaço e a visibilidade do Planeta Sinclair foram essenciais. Começo por agradecer ao Miguel Brandão, visto que partilhamos o mesmo carinho pela Micromania, pelo trabalho incansável e persistente de correr atrás de todas as edições! Foi um excelente trabalho! Ao Francisco Cruz, por ter encontrado estes posts e trazido notícias do seu irmão, e, finalmente, um agradecimento muito sincero e sentido ao João Cruz, por todos os bons momentos que a Micromania trouxe à minha vida!
As minhas contribuições regulares no Planeta Sinclair também terminam por aqui. Foram centenas de posts, a maioria dedicada a comentários de recortes: cerca de 200 do Correio da Manhã, 214 da Micromania e outras contribuições mais esporádicas, como notícias, reviews ou outras curiosidades, que não contabilizei. A minha primeira publicação foi a 19 de novembro de 2017, quando anunciei a primeira type-in da Revista Espectro (nº 2).
Agradeço especialmente ao André Leão por me ter convidado para o Planeta e também pela companhia dos restantes colegas, o Mário Viegas e o Pedro Pimenta.
Até à próxima e fiquem bem!
Filipe Veiga, aceito e retribuo este teu retro-carinho, duma época só nossa e que tua alma sentiu e está mergulhada em saudade, num meu rasgo no tempo que ME define no EU que hoje sou. Não me vou repetir, no que já escrevi e está expresso em vídeo por minhas palavras ... Os video-jogos são a extensão da minha cumplicidade com a imortalidade. Se neles morres, tens sempre mais uma vida para voltar. E neste belo poema, TODOS os dias jogo, cumplice deste eterno sentimento. E isto é REAL, não pseudo-tretas ou vaidades alheias. Um abraço e até sempre, deste João Cruz.
ResponderEliminarMuito obrigado por todas as partilhas! Já agora, e sem querer ser chato, o último link, para a primeira publicação, aponta para esta post e não para a primeira. Abraço
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