sábado, 10 de outubro de 2026

Shadows of Belial


Nome: Shadows of Belial
Editora: Retroworks
Autor: JPison, Fransouls, Pagantipaco, Tacha, Mikomedes
Ano de lançamento: 2026
Género: Aventura
Teclas: Redefiníveis
Joystick: Kempston, Sinclair
Memória: 128K
Número de jogadores: 1
Descarga: Aqui

Shadows of Belial é a sequela informal de um jogo espanhol de 1986, desenvolvida por um conjunto de programadores extremamente talentosos e com provas mais do que dadas no panorama do ZX Spectrum. É também uma homenagem à editora Made in Spain que, apesar de não ter deixado um legado particularmente extenso em termos de número de títulos, contou nas suas fileiras com programadores responsáveis por alguns jogos de grande qualidade e deixou uma marca inesquecível na história do Spectrum. E tudo por culpa de um cavaleiro trapalhão, narigudo e de modos pouco convencionais, que dava pelo nome de Sir Fred. Assim, nada melhor do que, 40 anos depois, regressar a esse universo e criar o seu sucessor espiritual: Shadows of Belial.

Para quem não sabe, Belial é uma figura de origem mitológica associada ao mal, à vileza e à corrupção. Não é, portanto, difícil perceber que Shadows of Belial, numa tradução livre, evoca imediatamente algo sombrio e perturbador. E é precisamente isso que encontramos na história deste brilhante jogo, que merece ser contada. Mas, para começar, nada melhor do que recorrer às próprias palavras da RetroWorks, que de forma muito detalhada, nos conta como o cavaleiro trapalhão chegou a este ponto.

Fase 1: A Cidade Mineira

Quarenta anos depois da tragédia que arruinou o seu nome, Sir Fred continua assombrado pela noite fatídica em que figuras encapuzadas, emergindo das sombras, tentaram pôr termo à sua vida. Desde então, a memória do aço a reluzir na escuridão e das vozes ocultas sob os capuzes continua a persegui-lo.

Tendo sobrevivido ao ataque graças ao instinto e à coragem, descobriu, horrorizado, que entre os seus agressores mortos se encontrava Dom Gilberto de Mendoza, filho do Grão-Duque. Consumido pela inveja e por uma obsessão doentia pela sua mulher, Gilberto arquitetara uma traição destinada não apenas a matar Sir Fred, mas também a destruir a sua honra para sempre.

Quando, ainda convalescente, Sir Fred conseguiu regressar à sua propriedade, encontrou o castelo em chamas, as terras saqueadas e um mandado de captura e morte emitido contra si. Tudo aquilo que possuía fora reduzido a cinzas. Injustamente acusado e sem aliados a quem recorrer, não lhe restou outra alternativa senão fugir e desaparecer.

Durante anos, viveu escondido sob uma identidade falsa, como um simples taberneiro, longe da glória, das armas e da linhagem a que outrora pertencera. Entretanto, a sua família foi caindo lentamente em desgraça, vítima do medo, das mentiras e da ambição daqueles que conspiravam contra ele.

Agora, depois de tomar conhecimento do assassinato do pai e dos irmãos, Sir Fred decide abandonar o refúgio que o manteve vivo durante quatro décadas. Velho, endurecido pelo tempo e carregado de tristeza, regressa às terras que um dia jurou proteger, determinado a descobrir a verdade escondida por tantos anos de silêncio.

Depressa descobre que os supostos monstros encapuzados que aterrorizam a região não são criaturas sobrenaturais, mas homens disfarçados que operam nas sombras. A sua investigação conduzi-lo-á até uma antiga mina romana, abandonada desde tempos imemoriais e envolta em rumores de uma terrível maldição.

É para lá que cavalga Sir Fred, movido pela determinação de quem já perdeu quase tudo. Nas profundezas da mina, espera encontrar os responsáveis pela tragédia, vingar o sangue dos seus entes queridos e, finalmente, limpar o nome que lhe foi roubado.

Fase 2: A Mina Amaldiçoada

Shadows of Belial coloca-nos novamente na pele de Sir Fred, quarenta anos depois dos acontecimentos que destruíram a sua vida. Desta vez, porém, não há espaço para hesitações: o velho cavaleiro regressa para enfrentar os fantasmas do passado e iniciar uma jornada de justiça, vingança e redenção.

A aventura encontra-se dividida em cinco fases, cada uma delas conduzindo Sir Fred um pouco mais fundo num mundo sombrio e ameaçador, onde nada é o que parece e cada descoberta aproxima-o da verdade.

Fase 1: A Cidade Mineira

A aventura começa na antiga Cidade Mineira, agora dominada por perigosos piratas berberes. Entre ruínas abandonadas, grutas e túneis subterrâneos, Sir Fred terá de abrir caminho à força enquanto procura cinco gemas encantadas.

São as gemas encantadas que guardam o segredo para quebrar o selo que impede a entrada na mina. Mas chegar até às cinco gemas não será tarefa fácil, pois a cidade está longe de estar deserta e os seus novos habitantes não parecem particularmente interessados em receber visitas. 

Entre a fauna local, como as temíveis piranhas, surgem os temíveis arqueiros, sempre com tendência para perseguir Sir Fred nos locais menos apropriados, nomeadamente quando este se baloiça por entre lianas, qual Tarzan da época medieval. E também desde início que percebemos que a melhor estratégia não é dar conta dos inimigos à força da flecha, pois estas são muito limitadas e vão ser necessárias para chegar a locais que doutra forma são inalcançáveis. A melhor estratégia é então evitar o máximo possível de inimigos.

Fase 3: O Palácio Oculto

Fase 2: A Mina Amaldiçoada

Ultrapassada a entrada selada, Sir Fred mergulha nas profundezas da Mina Amaldiçoada. O ambiente torna-se mais claustrofóbico e perigoso, entre túneis mergulhados na escuridão, elevadores traiçoeiros e galerias que parecem ter sido esquecidas pelo próprio tempo. Por vezes temos que dar verdadeiros saltos de fé.

É também aqui que começam a surgir as primeiras respostas. Entre páginas de um diário espalhadas pelo cenário, Sir Fred descobrirá a origem da maldição, o verdadeiro poder das esferas amaldiçoadas e os contornos de um sinistro pacto infernal que esteve na origem de toda a corrupção.

Quanto mais avançamos, mais percebemos que aquilo que aconteceu há quarenta anos poderá ter raízes muito mais profundas do que inicialmente imaginávamos.

É ainda obrigatório encontrar e recolher todas as esferas, sem elas não se abrirá a porta para o nível seguinte.

Fase 3: O Palácio Oculto

Das profundezas da mina passamos para um lugar ainda mais misterioso: as câmaras do Palácio Oculto, uma construção erguida no interior da própria montanha através da magia de Belial.

Aqui, a exploração ganha ainda maior importância. Sir Fred terá de percorrer salões proibidos, procurar orbes escondidos e encontrar os livros mágicos que contêm o conhecimento necessário para enfrentar e derrotar os seus inimigos.

O palácio é, simultaneamente, um lugar de descoberta e de perigo, onde cada passagem pode esconder um novo segredo e cada livro encontrado pode revelar uma peça fundamental do enorme quebra-cabeças em que a aventura se transformou.

É também no palácio que se encontra a temível sala de treinos. Só os mais valorosos a conseguirão passar. Não deixem nada por ver, senão estão condenados a nela ficarem para sempre...

Fase 4: Porta ad Infernum

Fase 4: Porta ad Infernum

E quando pensamos que já conhecemos todos os horrores deste mundo, surge Porta ad Infernum.

Sir Fred é arrastado para as profundezas do próprio abismo, num cenário dominado pela lava, pelo fogo e por sombras de natureza verdadeiramente infernal. É aqui que será preparado o ritual final, a única oportunidade que resta para destruir de uma vez por todas os seus inimigos.

Mas este não é um lugar onde se possa cometer erros. Um único passo em falso poderá significar a condenação eterna. E quando falamos em passo em falso, é mesmo isso que queremos dizer, pois num mundo dominado pela lava, Sir Fred tem que percorrer enormes galerias montado num vagão, sempre prestes a resvalar para o fogo, com os efeitos que se esperam.

Fase 5: A Ira dos Justos

Chegamos finalmente ao confronto que Sir Fred esperou durante quatro décadas.

Em A Ira dos Justos, o nosso herói trapalhão terá de enfrentar o seu destino numa batalha final que colocará à prova tudo aquilo que aprendeu durante a aventura. Já não se trata apenas de sobreviver: está em jogo a vingança pelo sangue da sua família e a recuperação da honra que lhe foi roubada.

Depois de atravessar cidades em ruínas, minas amaldiçoadas, palácios mágicos e as próprias portas do Inferno, Sir Fred chega ao momento decisivo.

A verdade será finalmente revelada. Os seus inimigos terão de ser enfrentados. E o nome de Sir Fred terá de ser, finalmente, limpo.

Quarenta anos depois, chegou a hora da vingança. Ou não...

Fase 5: A Ira dos Justos

Se Sir Fred tinha um problema que conseguia testar a paciência até do mais dedicado jogador, era a sua movimentação. O nosso cavaleiro parecia ter vontade própria: movimentos pouco previsíveis, uma inércia exagerada e controlos que nem sempre respondiam como gostaríamos transformavam, por vezes, uma simples deslocação numa autêntica luta. Felizmente, Shadows of Belial pega precisamente nesse problema e resolve-o de uma vez por todas. Sir Fred está agora muito mais solto, responde imediatamente aos nossos comandos e movimenta-se com uma fluidez que torna a experiência incomparavelmente mais agradável. Acabaram-se os movimentos estranhos, as derrapagens involuntárias (vulgo inércia) e aquela sensação de estarmos constantemente a lutar contra o próprio personagem. Além disso, não demos por qualquer bug, algo que acontecia frequentemente em Sir Fred.

Mas se a jogabilidade evoluiu enormemente, o departamento gráfico também merece uma valente vénia. Shadows of Belial é visualmente deslumbrante, aproveitando as ferramentas modernas para levar o universo de Sir Fred a um nível que seria difícil imaginar em 1986. Os cenários são detalhados, variados e cheios de personalidade, conseguindo transmitir na perfeição aquela atmosfera sombria e misteriosa que a aventura exige. E até o ecrã de carregamento merece uma referência: surge diante dos nossos olhos quase como por magia, deixando desde logo perceber que não estamos perante um projecto feito de qualquer maneira. Há cuidado, há talento e, acima de tudo, há um enorme respeito pelo material original.

A aventura está também muito bem ritmada, talvez ainda melhor que em Bloodstone, um jogo com o qual se pode comparar. Apesar da extrema dificuldade (snapshots frequentes são uma necessidade), a exploração é recompensadora e existe sempre algo que nos incentiva a avançar mais alguns metros, entrar naquela gruta, procurar aquele objecto ou descobrir o que se esconde atrás da próxima passagem. A isto junta-se uma banda sonora de enorme qualidade, com muitas e excelentes melodias, que acompanham a aventura, sem se tornarem repetitivas e contribuem decisivamente para a atmosfera. É daqueles jogos em que começamos a perceber que cada elemento foi pensado em conjunto e não colocado simplesmente para preencher espaço. Aliás, basta ter assistido à apresentação do jogo no programa de Javi Ortiz (ver aqui), para se depreender isso mesmo das palavras dos programadores.

E talvez seja aqui que percebamos a verdadeira razão para os mais de dois anos de desenvolvimento. Shadows of Belial não é apenas uma continuação espiritual de Sir Fred: é uma tentativa séria de pegar naquilo que tornou o original especial, corrigir aquilo que envelheceu pior e construir algo que faça sentido num ZX Spectrum dos nossos dias. O resultado é extraordinariamente conseguido. Gráficos, animação, controlos, jogabilidade, música, ambientes e atenção ao detalhe juntam-se para criar uma experiência que, em muitos momentos, roça a perfeição.

E é por isso que, nesta altura, não temos qualquer problema em dizê-lo: Shadows of Belial é o mais forte candidato a GOTY este ano (opinião muito pessoal, mas compartilhada por muitos, pelo que fomos vendo). Ainda poderão aparecer outros grandes jogos, mas a fasquia ficou colocada muito alto. Se um jogo moderno consegue recuperar um personagem de 1986, eliminar praticamente todas as suas maiores fragilidades e transformá-lo numa aventura desta qualidade, então estamos perante algo muito mais importante do que uma simples homenagem. Sir Fred regressou. E regressou em grande.

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