Quase um ilustre desconhecido,
além-fronteiras, Paradise Café é mais do que um simples jogo. É um conjunto de
críticas à sociedade portuguesa da época, transpostas para o mundo digital, culminando
num dos mitos urbanos mais lendários do nosso país, do início dos anos 80.
Os portugueses viviam a sua
primeira década, de liberdade, após a deposição do regime ditatorial do Estado
Novo, que durou cerca de 41 anos. As mudanças inerentes de um governo
autoritário, que tinha como um dos seus grandes lemas: "Deus, Pátria, Família", deram azo a um
regime democrático propenso a extremos. Sendo Paradise Café fruto dessa nova
irreverência social que acabou marcando, toda uma nova geração, que, pela
primeira vez, pôde experimentar o tabu sexual, de uma forma digital e interactiva,
nunca antes vivida, ou sequer imaginada pelos seus pais, no interior dos seus
lares.
Criado em 1985, do que sabemos, por Damatta©, uma vez que o seu
verdadeiro nome permanece um mistério, isto porque, ao longo de 32 anos, nunca
ninguém assumiu a autoria da obra, dando origem a uma série de especulações, tais
como: o autor morreu; emigrou para os Estados Unidos da América; pertence a uma
família proeminente; ou que se tornou famoso e que não quer ser conotado com o
jogo. Mesmo havendo um pedido público expresso na procura do autor, assegurando
o seu anonimato, promovido e difundido desde há uns anos através do site Universo Spectrum, o
que é certo é que até aos dias de hoje, nunca ninguém respondeu ao apelo.
Uma vez que na época não havia
legislação, em Portugal, para jogos de computador, qualquer pessoa podia
comercializá-los através de lojas da especialidade, de forma “pirata” e sem
qualquer registo de venda comercial. A não ser que o próprio se acuse, é pouco
provável que venhamos a conhecer o verdadeiro nome do autor, ou a história real
por detrás da sua obra.
Mas o que é que Paradise Café, na sua génese, fez com que seja um jogo intemporal e inesquecível para toda uma geração? Essencialmente é um jogo de cariz sexual em que controlamos um personagem que deambula nas ruas, procurando sexo com prostitutas, de porta em porta, comprando e vendendo droga, em que podemos, também, cometer actos de violação a uma idosa e matar quem nos tenta roubar, caso estejamos armados.
Em suma é um jogo de jogabilidade diminuta, mas com gráficos grandes e detalhados que acabam por lembrar os jogos do autor Don Priestley. Esta forma de grafismo, arcaica nos dias de hoje, mas que para a época era de um realismo impressionante, acabou por levar muitos pais a irem às lojas que vendiam o Paradise Café, pedir responsabilidades aos donos por terem vendido o jogo, aos seus filhos, numa época em que não havia uma lei que proibia a venda de jogos violentos ou com conteúdo sexual a menores.
Inicialmente o Paradise Café foi posto à venda, de forma camuflada, com
uma simples capa genérica e seu nome, sem imagens ou algo que indiciasse a
verdadeira natureza do jogo. Mas o passar da palavra e a conversa entre colegas
de escola, tornaram o mesmo famoso, surgindo mais tarde, uma versão com capa a
cores com a referência: interdito a menores de 18 anos, bem antes de qualquer
sistema de classificação de conteúdo de jogos electrónicos ter sido implementado
na Europa. Isto acabou por gerar mais controvérsia, já que os jogos eram
retirados da prateleira, para gavetas, para evitar o burburinho dos pais no
interior das lojas que não queriam que os filhos vissem a mesma. (Estes factos
foram relatados, à minha pessoa, por um empresário, nos anos 90, que vendeu
jogos de computador para várias lojas).
Mas, mesmo com toda esta polémica, o momento mais memorável e
marcante, associado ao jogo, que todos falavam e ainda hoje é recordado, resume-se
à condição quando o personagem fica sem dinheiro, e após recorrermos ao serviço
de uma prostituta, a mesma quando exige pagamento, o boneco controlado pelo
jogador responde: - não tenho dinheiro. Esta situação despoleta uma animação em
que surge um matulão africano, nu, qual Kid Bengala, que sodomiza o nosso
personagem como punição. Esse personagem é chamado de Reinaldo, e foi inspirado
no seguinte mito urbano português: Nos primórdios dos anos 80 estoira o "boato Reinaldo", segundo
o qual, Laura Diogo, das Doce (a primeira girls
band portuguesa), teria sido hospitalizada após ter tido relações sexuais
com o futebolista do Benfica, Maurício Zacarias Reinaldo Rodrigues Gomes,
devido ao tamanho do seu membro. O grupo, acabou mesmo por ter espectáculos
cancelados e ver, diminuídas, as vendas do seu álbum "É Demais", que
estava a caminho do disco de ouro. Mas como os boatos em Portugal são
passageiros, e a memória das pessoas curta, o álbum recuperou nas vendas,
acabando por ser platina. No que se refere a Reinado, a sua carreira nunca mais
foi a mesma, porque após o boato, terminou contrato com Benfica, indo jogar
para o relativamente modesto Boavista Futebol Clube.
Inspirado ou não no verdadeiro
Reinaldo e sua "história", Damatta© pegou num “homónimo” e
transportou-o para o Paradise Café, transformando este personagem na figura
mais popular de sempre num jogo made in Portugal, pelo menos até aos dias de
hoje. E mesmo que alguém diga que é uma mera coincidência, basta olhar para a
capa a cores escolhida para o jogo, em que a utilização da modelo Penny Baker,
Playmate da Playboy, em Janeiro de 1984, não é de todo aleatória, já que era
muito parecida com a Miss Fotogenia portuguesa, em 1978, Laura Diogo.
Paradise Café, retrata o pior do lado humano e de uma sociedade. Mas também
critica os medos e os podres de uma nação que, quase milenar, vivia uma nova
era, onde drogas, criminalidade, prostituição e o escândalo dos famosos
começavam a inundar cada vez mais os média, algo que não acontecia no passado. Não é de estranhar, com tudo o
que foi dito, o porquê de nos dias de hoje o autor permanecer anónimo, mesmo
que o jogo tenha sido, e ainda é, um marco em Portugal.
Se tivesse que pontuar o jogo, numa classificação de zero a cinco, daria o
máximo de um.
Um jogo pode tornar-se intemporal, mas isso não lhe confere, por si só,
qualidade ou notas altas. Mesmo com grafismo grande e detalhado, os gráficos
distorcem estranhamente, por vezes, nas animações, o som é inexistente e a
jogabilidade é mínima, tornando o valor de repetição do jogo quase nulo. Pode não ter sido uma obra-prima, em 1985, e muito menos nos dias de hoje, mas quem o vivenciou, na época, foi sem dúvida uma das experiências mais marcantes, e quase única, recordada para todo o sempre, no velho e bom ZX Spectrum.
Artigo por: Mário Viegas, para a Revista Espectro Nº1








Paradise cafe
ResponderEliminarmuito bom o artigo, parabéns ao autor.
ResponderEliminarObrigado pela atenção Hugo, o Mário fez um muito interessante trabalho de pesquisa. E é engraçado ver como ao fim de tantos anos o Paradise Café continua a mover multidões... :)
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