quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Em Busca dos Tesouros


Nome: Em Busca dos Tesouros
Editora: Bitnamic Software
Autor: Tadeu Curinga da Silva
Ano de lançamento: 1986 / 2019
Género: Plataformas
Teclas: Não redefiníveis
Joystick: Cursor, ZXpand
Memória: ZX81
Número de jogadores: 1

Quem diria que em pleno 2019 continuariam a aparecer jogos para o ZX81, sistema que parecia defunto em 1986, mas que entrou agora numa segunda juventude? E este jogo até tem uma história muito curiosa e que se revelou uma autêntica epopeia, mas que mas que não resistimos a contar…

Em Busca dos Tesouros foi desenvolvido por Tadeu Curinga da Silva ao longo de dois anos, tendo sido lançado em 1986. O autor inspirou-se em Pitfall, sucesso do Atari 2600 (saiu uma versão em 1984 para o Zx Spectrum), tendo sido vendido exclusivamente pelo correio (em cassete ou somente a listagem com o código-fonte), pela primeira revista brasileira de microcomputadores, a Micro Sistemas. Ao lado encontra-se um artigo muito interessante que saiu no número 62 da revista (Novembro 1986).

Entretanto o jogo desapareceu de circulação, até ter sido recuperado por Kelly A. Murta (responsável também pela recuperação dos primeiros jogos para o ZX81 em Portugal, já disponibilizados em Planeta Sinclair), que digitou manualmente toda o código. Em 2006 o criador de Em Busca dos Tesouros foi contactado, tendo permitido a sua distribuição pela internet, tendo, além disso, cedido o caderno com o código-fonte original, completo, escrito à mão, que entretanto também já se encontra disponível pela comunidade.

Desde logo em Busca dos Tesouros destacou-se pela sua dimensão: com 16K, 313 diferentes ecrãs, 15 tipos de inimigos, possibilidade de uso de joystick, escrito 100% em assembler, não parecia sequer ser um lançamento para um computador tão escasso em memória como é o ZX81. Aliás, a própria dimensão do jogo fez com que ao contrário do que era habitual na revista Micro Sistemas, a listagem com o código-fonte não pudesse ser impressa.

Surge então agora uma versão de luxo pela recém-criada Bitnamic Software, dos nossos colegas Filipe Veiga e Marcus Garrett, dando enfim o tratamento que há muito este jogo merecia. Além disso, juntou-lhe a música exclusiva, da autoria de mais um nosso colega, Pedro Pimenta, originando um lançamento memorável.


Em Busca dos Tesouros assumimos a pele de um explorador, Kid K. Sador, quiçá inspirando-se nas aventuras de Indiana Jones, e que parte à procura dos valiosos tesouros perdidos da Terra T. Nebrosa (e é mesmo tenebrosa, podemos assegurar). E os problemas começam logo a partir do segundo ecrã, quando surgem buracos no piso. É óbvio aquilo que há a fazer: saltar. No entanto, ao longo do percurso haverá armadilhas menos óbvios, e por vezes até percursos alternativos, exigindo boa memória, mas acima de tudo muita intuição (decorar 313 ecrãs seria obra…), não esquecendo que a ganância é fatal.

De seguida os inimigos começam a aparecer. Alguns deles permanecem imóveis, e apenas temos que dar com o ponto exacto para conseguir saltar por cima deles (sim, é exigido “pixel perfect”), mas a grande maioria vai andando ao longo dos cenários, e mesmo sendo através de padrões regulares e por isso memorizáveis, não impede que ultrapassar alguns deles seja tremendamente complicado. Se algo temos a apontar a este jogo é mesmo o excessivo grau de dificuldade. Aliás, quando foi lançado, em 1986, a primeira pessoa a conseguir terminá-lo teria direito a um prémio monetário. Escusado será dizer que não houve vencedor que se acusasse.


Por esta altura já começam a perceber, mesmo aqueles que não experimentaram Em Busca dos Tesouros, o seu elevadíssimo grau de dificuldade. Agora, se juntarmos os obstáculos fixos, que exigem um timing de salto perfeito, com toda a panóplia de inimigos que vão surgindo, incluindo o próprio piso, que por vezes se vai movendo, vemos que chegar ao fim é tarefa praticamente impossível, e mesmo aqueles que o façam (possivelmente com a ajuda de vidas infinitas), irão demorar longas horas até o fazer. 

São muito poucos os momentos mortos, excluindo-se os easter eggs que surgem a cada 100 ecrãs, e um ou outro que o autor achou por bem deixar e que permite respirar um pouco, proporcionando um desafio frenético e difícil de imaginar numa plataforma como a do ZX81. 

E será que as coisas poderiam piorar? Podem, pois em alguns ecrãs, assim que neles entramos, teremos logo que tomar algum tipo de acção (saltar um inimigo que caminha contra nós, ou saltar o piso que desaparece, etc.). Assim, além de tempo e local de salto perfeito, também reflexos rápidos e uma capacidade de reacção quase sobrenatural, é-nos exigido. Em Busca dos Tesouros é um desafio apenas para os mais destemidos, os restantes podem-se ficar por emoções menos fortes (sugere-se a Canasta ou o Dominó).


Seria incontornável falarmos das dificuldades que se vão aqui encontrar, no entanto, quem se atrever a jogar Em Busca dos Tesouros vai também encontrar aquele que porventura será o maior e mais completo jogo para o ZX81. As animações são deliciosas, cada inimigo com alguns movimentos característicos (os jacarés, por exemplo), e os 313 cenários, todos diferentes uns dos outros, estão muito bem imaginados, apresentando sempre desafios que nos deixariam deslumbrados, não fosse a maior parte deles apresentarem armadilhas às quais teremos que reagir rapidamente. Aliás, atrevemo-nos a dizer que os gráficos são melhores (e maiores) do que em muitos jogos do irmão maior (ZX Spectrum).

O nosso personagem desloca-se com grande leveza, sendo apenas um pouco “duro de rins” em alguns emuladores, nos quais conseguir saltar na diagonal exige alguma técnica. Na máquina real assegura-se uma tarefa um pouco menos complicada, diga-se.

Finalmente, e sem querer “puxar a brasa à nossa sardinha”, os efeitos sonoros e música são talvez os melhores que se vão encontrar num jogo para o ZX81. O Pedro Pimenta (também colaborador de Planeta Sinclair e responsável pelo logótipo), tem vindo a fazer uma progressão meteórica e não é por acaso que actualmente já é requisitado pelos melhores criadores de jogos para o Spectrum.

Em Busca dos Tesouros é assim uma aventura imensa, a maior, sem qualquer dúvida, e talvez a melhor que jamais foi feita para o ZX81. Aventurem-se por aqui, se forem capazes, pois a partir de Sábado o jogo será disponibilizado pela comunidade...

Se optarem pela edição física, esta tem duas opções:
  • Baú de Jóias: caixa grande e colorida, manual ilustrado com 24 páginas (história da Terra T. Nebrosa, dados dos inimigos, dicas e outras surpresas), fita cassete produzida / duplicada profissionalmente, card numerado e autografado pelo Tadeu Curinga da Silva, e uma reprodução da página da revista Micro Sistemas (1986) em que o jogo saiu pela primeira vez (10 cópias virão para Portugal).
  • Arca Preciosa traz tudo isso, mais: "boneco" do Escorpião Pinel (em MDF) armazenado numa caixa de madeira ao estilo "relíquia" e uma tshirt autografada pelo Tadeu Curinga da Silva.

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